Menina à Janela

Menina à Janela

Inspirada na grande obra de Salvador Dalí, intitulada “Menina à janela” (1925), sonho sobre mulheres e suas vicissitudes. Dalí é um espanhol muito conhecido pelo modo excêntrico em expressar a sua arte através da pintura. Nessa obra de imagem icônica e simbólica, retrata a irmã Anna Maria, aos dezessete anos, olhando pela janela, de costas, na casa de férias que a família possuía em Cadaqués, à beira mar. O curioso é que ele a pinta com algumas desproporções notáveis, como os pés, que são muito pequenos. Como um flash onírico, intuo certo aprisionamento da mulher daquela época. Chama a atenção como a arte, em suas múltiplas formas de expressões, representa o amor e ao mesmo tempo a dor da mulher em todo o seu percurso evolutivo e histórico. A mulher só podia contemplar a beleza, o horizonte e o belo pela janela? Anna Maria, menina à janela, mudou e se transformou, penso. A contemporaneidade mostra que a mulher não só contempla o belo pela janela, mas participa, vive e expande os seus horizontes. E foi uma conquista dela própria. Se Salvador Dalí estivesse vivo entre nós, retrataria a mulher em seus infinitos vértices: dançando na chuva sozinha, amamentando em grandes avenidas, pilotando avião, administrando um país, varrendo a rua com dignidade etc.

No contexto do Dia Internacional das Mulheres, essa imagem pode ser interpretada como a busca das mulheres por respeito e dignidade. A janela pode simbolizar a porta para um mundo mais justo.  Em Genesis, o Senhor Deus disse: Não é bom que o homem esteja só. Vou dar-lhe uma auxiliar que lhe seja adequada…Então, o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher, e levou – a para junto do homem. “Eis agora aqui-disse o homem -osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem”, podemos interpretar o versículo, de várias maneiras como uma metáfora para a união e equilíbrio entre homens e mulheres.

Cleuza Perrini preconiza que a “A verdade não está nos próprios objetos, mas na relação entre eles…a função feminina e a masculina, em uma dimensão não sensorial presente em todos os seres humanos e cujo reconhecimento é fundamental para o desenvolvimento mental e social”(2025).Ela ainda enfatiza que  “a mulher quando grávida passa a viver as duas funções em ação o tempo todo: a parte masculina, executiva, promove o desenvolvimento da criança dentro de si; a feminina, contém e acolhe a experiência. O homem “grávido” igualmente interage dentro de si as duas realidades: a feminina (acolhimento) ó masculina (segurança)…ao conter suas próprias emoções, bem como ao transmitir essa segurança ao acolher sua mulher e o bebê em formação” (2025).

Associado às grandes transformações que a mulher vem conquistando, infelizmente há novos desafios e mudanças que são ainda expectativas fundamentais em sua vida. É triste ver que ainda há muito machismo e violência contra as mulheres. Eu penso que tudo isso origina-se de uma construção social e cultural que ainda persiste em muitos lugares. O   sentimento de posse sobre as mulheres é um problema complexo, é preciso uma combinação de fatores incluindo mudanças políticas, econômicas e culturais, para criar uma sociedade mais justa e igualitária. É importante abordar as raízes do problema, que transcende a cultura do machismo, como a objetificação das mulheres, por exemplo, que estão fincadas em muitos aspectos da sociedade. O feminicídio é um problema grave e crescente no Brasil. Medidas protetivas não estão sendo monitoradas adequadamente, permitindo que agressões continuem a ameaçar suas vítimas. Muitos casos de feminicídio podem não estar sendo registrados corretamente, o que agrava o problema.

A violência contra as mulheres é um sintoma de uma sociedade que ainda perpetua desigualdade entre os gêneros. A implementação de políticas públicas para prevenir e combater o feminicídio ainda é um desafio. Freud em seu texto, Tabu da Virgindade (1918) diz que, “Poucas particularidades da vida sexual dos povos primitivos são tão estranhas a nossos próprios sentimentos quanto a valorização da virgindade, o estado de intocabilidade da mulher”. Seguindo mais adiante, ele nos toca profundamente, em muitos sentidos, “Sei que fomos tecidas em fio de dor e resistência. Sofremos desde os primórdios, em silêncio e segredo. O tabu da Virgindade foi um fardo que carregamos, um peso que nos acompanha, onde não pudemos questionar por um tempo. Freud escreveu sobre isso com olhos de psicanalista, desvendando os mistérios da alma feminina, tão complexa e tão real. A virgindade, um símbolo de pureza e de honra, mas também um peso, um ônus, uma prisão sem saída. Mas resistimos sempre, como flores que brotam na pedra, inquebrantáveis, indomáveis, com uma força que não se mede. Eras e eras de opressão, de silêncio e de dor, mas ainda assim, levantamo-nos, com um grito de amor. Somos a essência de vida, a fonte da criação. E merecemos respeito e amor. A dor pela qual fomos tecidas não apenas nos feriu, mas funcionou como matéria-prima para fortalecer e estruturar a pessoa que nos tornamos”.

Falando em tecidos lembrei dos retalhos de Cora Coralina: “Pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela minha e que vou costurando na alma. Nem sempre bonitos, nem sempre felizes, mas me acrescentam e me fazem ser quem eu sou. Em cada encontro, em cada contato, vou ficando maior. Em cada retalho, uma vida, uma lição, um carinho, uma saudade …que me tornam mais pessoa, mais humano, mais completo. E penso que é assim mesmo que a vida se faz :de pedaços de outras gentes que vão se tornando parte da gente também. E a melhor parte é que nunca estaremos prontos, finalizados…haverá sempre um retalho novo para adicionar à alma. Portanto, obrigada a cada um de vocês, que fazem parte da minha vida e que me permitem engradecer minha história com os retalhos deixados em mim. Que eu também possa deixar pedacinhos de mim pelos caminhos e que eles possam ser parte das suas histórias. E que assim, de retalho em retalho, possamos nos tornar, um dia, um imenso bordado de nós”.

Maria Angelica Bongiovani – psicanalista, membro efetivo e docente do GEP Marilia e Região e membro efetivo da SBPSP.  

Quando o Mundo Falha

Quando o Mundo Falha

Cartas sobre crueldade, adolescência e espelhos partidos – Reflexões sobre o caso Orelha e o que ele revela sobre nós

Escrevo este ensaio em dias de incerteza. As investigações sobre a morte de Orelha ainda estão em curso, não há testemunhas diretas da agressão, não há imagens do momento exato, e ao menos um dos adolescentes inicialmente investigados já foi descartado pela polícia. Presunção de inocência não é tecnicismo jurídico; é princípio civilizatório.

Este texto não acusa ninguém especificamente. O que ofereço são reflexões sobre algo mais amplo: o que a comoção nacional em torno de Orelha revela sobre adolescência, falhas ambientais, e os desafios éticos de nosso tempo. Porque houve uma morte brutal. Houve falha civilizatória. E precisamos pensar sobre isso — com rigor, com compaixão, com humildade.

I. O que resta quando os cães não latem mais
Era janeiro. Calor de litoral, férias, crianças na areia. Na madrugada entre 3 e 4 de janeiro de 2026, algo se rompeu na Praia Brava, Florianópolis. Não foi o mar quebrando nas pedras — esse barulho é antigo, esperado. Foi algo mais silencioso e mais brutal: o último suspiro de Orelha, um cachorro de dez anos que durante uma década inteira foi símbolo vivo de que existe gentileza no mundo.
Orelha não tinha dono. Ou melhor: tinha centenas. Moradores construíram-lhe casinha. Comerciantes separavam comida. Veterinária atendia quando necessário. Crianças faziam festa. Turistas fotografavam. Ele era, à sua maneira canina, prova de que podemos escolher o cuidado em vez da indiferença, a comunidade em vez do isolamento. E então, naquela madrugada, alguém o destruiu. Quando encontrado, Orelha agonizava com ferimentos graves na cabeça. O veterinário que o atendeu foi categórico: não foi acidente. Foi agressão. Deliberada, brutal. Diante da gravidade irreversível, restou apenas a misericórdia da eutanásia para cessar o sofrimento.
Escrevo isso e sinto o estômago revirar. Imagino que você também. Mas não podemos desviar o olhar agora. Não para alimentar nossa indignação justa com especulações sobre culpados, mas para compreender o que essa tragédia revela sobre nós — sobre como estamos (ou não) cuidando de nossos adolescentes, sobre os espelhos partidos que oferecemos a eles, sobre as falhas civilizatórias que se acumulam silenciosamente até explodirem em atos incompreensíveis. Porque aqui reside o espanto: como uma sociedade produz adolescentes capazes de crueldade extrema contra um animal comunitário que representava afeto coletivo?
Não pergunto “quem fez isso?” — essa é tarefa das investigações em curso. Pergunto algo mais profundo: que falhas sistemáticas nos trouxeram até aqui?

II. A sabedoria antiga das perdas
Há uma sabedoria antiga, quase um aforismo da experiência humana: aquilo que nos falta dói mais do que aquilo que nunca tivemos. Pense no menino que conheceu o colo materno e depois o perdeu. Ele não esquece a temperatura daquele abraço. Passa a vida inteira buscando recuperá-lo — às vezes em lugares estranhos, de formas distorcidas. Diferente da criança que nunca conheceu o afeto: esta constrói defesas, torna-se autossuficiente à força. Mas aquela que teve e perdeu… ah, essa
carrega uma ferida peculiar. Esse é o coração de uma das compreensões mais revolucionárias sobre violência juvenil:
muitas vezes, o ato destrutivo não nasce de um vazio primordial, mas de uma plenitude perdida. O adolescente violento está, paradoxalmente, gritando: “Houve algo bom que me foi roubado. Exijo reparação!”
Quando ele rouba, não busca apenas o objeto material. Tenta recuperar simbolicamente aquilo que lhe foi retirado — atenção, reconhecimento, a sensação de que importa para alguém. Quando destrói, está comunicando: “Se não posso ter o mundo que me prometeram, que ninguém tenha nada.” É um grito de esperança mascarado de desespero.

Donald Winnicott, ao fundamentar a psicanálise também na questão do ambiente facilitador, ofereceu-nos essa compreensão. Para ele, a tendência antissocial não se origina primordialmente de conflitos intrapsíquicos, mas de uma deprivação — experiência de perda ou ausência de algo que, em algum momento, esteve presente e foi bom.
Imagine um rio que, durante anos, fluiu tranquilo por seu leito. De repente, encontra uma barragem: suas águas, impedidas de seguir o curso natural, começam a transbordar, inundando margens, destruindo o que encontram. Essa é a imagem da criança ou adolescente que vivencia deprivação: houve um tempo de suficiência — um ambiente que sustentava, que
reconhecia, que permitia o desenvolvimento saudável. Então, algo falhou. O ambiente tornou-se intrusivo, ausente ou inadequado. E o que era potência de vida converte-se em destrutividade.
No caso que nos ocupa, os adolescentes investigados vêm de “famílias estruturadas” — expressão repetida à exaustão nos noticiários. Estruturadas como? Com casas grandes, carros importados, viagens internacionais?
Sim, essas famílias têm estrutura de concreto. Mas será que têm estrutura de afeto? Estrutura de presença? Estrutura de adultos que conseguem sustentar as angústias adolescentes sem desmoronar, sem fugir, sem transferir para empregados ou tablets a tarefa de criar um ser humano?
Porque o que sustenta uma criança não são paredes, mas olhares. E o que estrutura um adolescente não é conta bancária, mas a certeza de que pode explodir, duvidar, testar limites — e ainda assim será acolhido. Não aplaudido, não mimado. Acolhido. Há diferença abissal entre as duas coisas.

III. O teatro digital: espelhos que não refletem, amplificam
Agora preciso falar do elefante na sala — ou melhor, do algoritmo no bolso de cada adolescente.
As investigações policiais sobre o caso Orelha descartaram conexão com grupos online de tortura animal. Isso é importante: este caso específico aparentemente não nasceu de desafios digitais ou comunidades de zoosadismo. Mas isso não torna o fenômeno menos real ou menos urgente para pensarmos.
Porque existe, sim, uma rede global e pulsante onde adolescentes compartilham vídeos de tortura animal. Competem por visualizações. Ganham notoriedade. Alguns até monetizam o horror. Plataformas como Telegram viraram centrais de distribuição. Há rankings. Há desafios. Há uma economia perversa onde dor se converte em likes, e likes em sensação de importância. O zoosadismo digital é real. Organizações internacionais de defesa animal reportaram mais de 80 mil links suspeitos em 2024. Adolescentes no Brasil e no mundo participam dessas redes. Casos documentados na China, Reino Unido, Estados Unidos mostram jovens torturando animais para câmeras, buscando validação em comunidades online que celebram crueldade. Autoridades brasileiras que lidam com crimes digitais confirmam a escalada. A Juíza Vanessa Cavalieri, que acompanha há anos essa violência online, documenta plataformas como Discord onde grupos — as chamadas “panelas” — reúnem-se para praticar e transmitir ao vivo torturas de animais e pessoas. Em 2025, um morador de rua foi incendiado vivo no Rio de Janeiro durante uma dessas transmissões. O fenômeno não se limita a casos extremos: manifesta-se
também no aumento da crueldade no bullying escolar, na violência doméstica de filhos contra mães e avós. É o que especialistas chamam de dessensibilização — cérebros em formação sendo moldados para tolerar graus absurdos de violência.
Mesmo que o caso Orelha não tenha nascido daí, precisamos urgentemente pensar sobre como as redes sociais estão moldando (e deformando) o psiquismo adolescente. Pense nisso como um espelho. Não aqueles espelhos antigos de vidro bisotado que mostravam uma imagem relativamente fiel. Mas esses espelhos contemporâneos — múltiplos,
fragmentados, algoritmicamente manipulados para nos mostrar versões exageradas de nós mesmos. Espelhos que não refletem: amplificam. O adolescente sempre precisou de espelhos. Desde sempre. É olhando como os outros o veem
que ele descobre quem é. Mas antes esses espelhos eram finitos — família, escola, amigos do bairro. Hoje são infinitos, anônimos, ferozes. E eis o paradoxo cruel, documentado pelo Pew Research Center: 48% dos adolescentes
reconhecem que redes sociais fazem mal para pessoas de sua idade. Mas apenas 14% admitem que fazem mal para eles mesmos. É como se dissessem: “Eu vejo o problema no outro, mas em mim… em mim é diferente. Eu controlo.”
Ninguém controla. Os adultos não controlam — por que adolescentes controlariam?
Imagine: você é um jovem de 14, 15 anos. Sente-se invisível na própria casa. Pais ausentes, ocupados, delegando afeto. Na escola, mais do mesmo — professores cansados, colegas competindo por atenção. Você pega o celular. Entra num grupo onde conteúdos extremos circulam. E de repente, você existe. Você tem audiência. É uma droga. Literal. Ativa os mesmos circuitos neurais da cocaína. A OMS alertou que o uso problemático de redes sociais entre adolescentes europeus saltou de 7% para 11% em apenas quatro anos. No Brasil, estudos apontam correlação entre uso excessivo de telas e aumento de
ansiedade, depressão, distúrbios do sono em jovens. A distância entre assistir violência e perpetrá-la pode encolher. O que era barreira moral pode tornar-se desafio. Linha vermelha pode virar convite. Não estou dizendo que redes sociais “causam” violência diretamente. Mas estou dizendo que são parte do ambiente que falha. E Winnicott nos ensinou: quando o ambiente falha, adolescentes vulneráveis podem responder com destrutividade.

IV. Os adultos que não estão lá
Aqui reside algo que me atordoa: segundo as investigações, três adultos — pais e tio de adolescentes investigados — foram indiciados por suposta coação a testemunhas. Eles negam as acusações, e o caso está sob análise do Ministério Público.
Se confirmado, estaremos diante não apenas de adolescentes perdidos, mas de um sistema familiar inteiro que opera numa lógica invertida: em vez de confrontar os jovens com consequências de seus atos, protege-os das consequências. Em vez de oferecer contenção (que é forma de amor), oferece cumplicidade (que é forma de abandono). É como dizer ao adolescente: “Você pode fazer qualquer coisa. Nós cuidamos para que nada te aconteça.” Parece amor, não? Mas é seu oposto. É empurrar o adolescente para uma solidão aterradora onde ele vira deus — onipotente, sem limites. E não existe solidão maior que a omnipotência. Porque se você é deus, não existe o outro. Só você e seus caprichos.

Winnicott foi claro sobre isso: o adolescente precisa de adultos que digam não. Que o impeçam de se destruir e de destruir. Que ofereçam esse tipo estranho de amor que consiste em frustrar, em ser o muro onde o filho pode se apoiar justamente porque o muro não cede. Mas o que acontece quando os adultos abdicam? Quando preferem ser amigos, cúmplices,
protetores cegos? Nasce a falsa maturidade. O adolescente é forçado a parecer adulto antes de ter estrutura para
isso. Perde sua maior vantagem — o direito de ser imaturo, de errar em ambiente protegido, de testar limites sem que o mundo desmorone. E quando não pode ser adolescente, quando não pode brincar, experimentar, viver sua confusão necessária… resta a descarga direta. O ato bruto. A violência como única linguagem disponível.
O caso do índio Galdino, queimado vivo por adolescentes de classe alta em Brasília (1997), nos ensinou isso há quase 30 anos. Adolescentes protegidos demais de consequências, vivendo numa bolha de impunidade familiar, podem chegar a extremos impensáveis. E quando a sociedade não funciona como contentor firme, apenas repete a tragédia em novas versões.

V. Orelha como símbolo do que perdemos
Há algo de profundamente simbólico no fato de a vítima ter sido Orelha. Ele não era “apenas” um cachorro (como se existisse “apenas” cachorro). Era um cão comunitário. Não pertencia a ninguém individualmente. Pertencia a todos. Era
simultaneamente de cada pessoa e de pessoa nenhuma. Durante dez anos, Orelha funcionou como uma espécie de cola invisível entre desconhecidos. O comerciante que separava comida, o morador que pagava veterinário, a criança que fazia
carinho — todos participavam de algo maior que eles mesmos. Uma rede de cuidado espontâneo, sem contrato, sem pagamento, sem obrigação legal. Pura gratuidade. E talvez seja isso que doa tanto. Destruir Orelha não foi apenas matar um animal. Foi atacar a possibilidade mesma de vínculo empático, de generosidade sem cálculo, de comunidade.
Quem quer que tenha perpetrado aquela violência — e isso ainda está sob investigação — escolheu destruir o símbolo da gentileza coletiva. Como se dissesse: “Se não posso ter isso, ninguém pode.”
E o Brasil inteiro sentiu. Mais de 170 mil assinaturas em petições. Manifestações em dezenas de cidades. Cobertura internacional em veículos como Infobae, France 24, La Nación. Políticos de esquerda e direita (pela primeira vez em anos) unidos numa causa. Por quê? Porque reconhecemos, ainda que inconscientemente, que Orelha éramos nós. Todos
nós. Nossa capacidade de cuidar do vulnerável. Nossa escolha diária entre a crueldade e a compaixão.
A reportagem do Fantástico mostrou o desenho gigante do rosto de Orelha feito na areia da praia. Uma homenagem efêmera — o próximo vento a apagaria. Mas enquanto durou, foi testemunho: ainda somos capazes de luto coletivo por uma vida que importava.

VI. O que fazemos agora?
Chego ao ponto onde todo ensaio quer chegar: e agora?
Primeiro, precisamos abandonar a ilusão de que soluções simples existem. Não há lei mágica, não há punição exemplar, não há campanha de conscientização que resolva o que está rachado na base. Mas isso não significa resignação. Significa humildade para reconhecer que estamos diante de um problema de múltiplas camadas:

Camada jurídica: As investigações precisam seguir seu curso com rigor. Sem linchamento moral prematuro, mas também sem impunidade pela influência familiar. Presunção de inocência não significa negligência investigativa. Quem quer que tenha cometido aquela brutalidade precisa ser responsabilizado — não apenas punido, mas responsabilizado, que é processo ativo de subjetivação, não sofrimento passivo. Como alguém me ensinou em diálogo recente: responsabilização é a função alfa da sociedade — transforma elementos beta (angústia bruta, ato impensável) em elementos alfa (experiência que pode ser pensada, elaborada, reparada).

Camada individual: Adolescentes envolvidos em violência extrema precisarão de intervenção psicológica profunda, não apenas medida socioeducativa burocrática. Precisam de espaços onde possam ser confrontados com sua própria destrutividade dentro de um ambiente que sustente esse confronto sem retaliar nem abandonar. É difícil? Sim. Mas é o único caminho que não perpetua a violência.

Camada familiar: Famílias precisam ser incluídas no processo. Não para culpabilização vazia, mas para reconstrução de vínculos. Porque muitas vezes os pais também foram privados — de tempo, de presença, de ferramentas emocionais. A violência atravessa gerações até que alguém a interrompa conscientemente. Se confirmado o acobertamento, isso não pode ser ignorado: precisa ser confrontado, trabalhado, reparado.

Camada social: Precisamos conversar sobre redes sociais como nunca conversamos. A Austrália proibiu menores de 16 anos de acessar redes sociais. Outros países exigem verificação de idade e alertas semelhantes aos de cigarros. O Brasil precisa enfrentar essa discussão. Não por moralismo, mas porque há evidência científica de que essas plataformas causam dano mental em cérebros em desenvolvimento. O ECA Digital, que entra em vigor em março de 2026, traz verificação de idade como primeira medida. É insuficiente, mas é começo. Não podemos terceirizar a formação ética de adolescentes para algoritmos que maximizam engajamento via conteúdo extremo. Plataformas que hospedam e amplificam violência — como Discord, Telegram, e outras — precisam ser responsabilizadas, não apenas os usuários que cometem os atos.

Camada educacional: Escolas precisam ensinar empatia com a mesma seriedade que ensinam matemática. Educar não é apenas transmitir conteúdo — é formar vínculos éticos, capacidade de se colocar no lugar do outro, reconhecimento de que todo ser vivo merece consideração moral.

Camada comunitária: O caso Orelha expôs redes globais de zoosadismo. Mesmo que não tenham se conectado a este caso específico, existem e precisam ser combatidas. Precisamos de canais efetivos de denúncia (Disque 100, Safernet, Polícia Federal), de fiscalização de plataformas digitais, de educação sobre os sinais de radicalização online. É fundamental lembrar: plataformas como Discord têm idade mínima de 18 anos, mas menores acessam livremente. Cabe às famílias monitorar — afinal, quem entrega o celular, paga a conta, vincula o CPF são os adultos. Crianças e adolescentes não compram seus próprios aparelhos. A responsabilidade começa aí. Mas acima de tudo, precisamos de presença. Presença de adultos na vida de adolescentes. Não adultos perfeitos — esses não existem. Adultos suficientemente bons. Que erram, mas se corrigem. Que não sabem tudo, mas estão dispostos a aprender junto. Que conseguem dizer não sem deixar de amar. Que oferecem o
colo quando necessário e o muro quando inevitável.

VII. O futuro que Orelha não verá
Termino voltando ao cachorro que nos trouxe até aqui. Orelha não verá o futuro. Não saberá se sua morte gerou mudança. Não assistirá ao desfecho das investigações, não ouvirá o pedido de desculpas (se vier), não verá crianças sendo educadas de forma diferente. Mas nós veremos. Ou melhor: nós decidiremos. Podemos transformar esse caso em mais um episódio de indignação passageira. Hashtag da semana, matéria no jornal, esquecimento em quinze dias. Ou podemos fazer dele ponto de inflexão. Momento onde finalmente enfrentamos o que estamos fazendo (e deixando de fazer) com nossos adolescentes. Onde reconhecemos que tablets não substituem abraços, que telas não substituem olhares, que dinheiro não substitui presença.
Há um provérbio africano que diz: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.”
Orelha foi cuidado por uma aldeia. Morreu porque algo nessa aldeia falhou brutalmente. Mas a aldeia toda respondeu — com choro, com raiva, com mobilização. A pergunta que fica é: será que essa aldeia conseguirá se reorganizar para cuidar de suas
crianças humanas com a mesma dedicação que cuidou de um cachorro comunitário?
Porque se conseguirmos — se verdadeiramente conseguirmos construir ambientes onde adolescentes possam crescer sem precisar destruir para existir, onde possam sentir que importam sem precisar chocar para serem vistos, onde possam errar sem serem abandonados…
Se conseguirmos isso, então a morte de Orelha não terá sido apenas tragédia. Terá sido semente.

Pós-escrito: A vontade de uma carta aos adolescentes
Se você é adolescente e chegou até aqui, quero te dizer algo diretamente: O que aconteceu na Praia Brava não define sua geração. Você não é responsável por aquela violência. Mas você é responsável pelas suas próprias escolhas.
Sei que é difícil. Sei que o mundo digital te puxa para extremos. Sei que às vezes você se sente invisível na própria casa. Sei que raiva acumula quando adultos não te escutam de verdade.
Mas escuta: violência nunca é resposta. Crueldade nunca te fará sentir menos vazio. Destruir o outro não reconstrói o que está quebrado dentro de você.
Se você está sofrendo, se sente que ninguém te vê, se a raiva parece incontrolável — peça ajuda. Fale com um adulto de confiança. Procure atendimento psicológico. Use os canais de apoio disponíveis (CVV 188, por exemplo).
Você não está sozinho. E você não é seus piores impulsos. Você é também — principalmente —sua capacidade de escolher o cuidado em vez da crueldade. Escolha bem.

Artigo originalmente publicado no (Observatório Psicanalítico da Febrapsi) – OP 658/2026

José Antonio Sanches de Castro
Membro da SBPSP e do GEP Marília e Região

Helen Beltrame-Linné: baseado em uma história real

Helen Beltrame-Linné: baseado em uma história real

Já não me lembro quando escrevi a última carta, nem quando recebi uma, mas me recordo bem do quanto era emocionante a chegada do carteiro, receber aquele envelope com meu nome, e me sentar para ler a carta de alguém distante.

Essa recordação me veio a memória ao conhecer a história Helen Beltrame-Linné, uma idealizadora de sonhos e realizações. Sempre ouvimos que algumas histórias de vida poderiam se tornar filme, no caso de Helen isso realmente está acontecendo.

Nascida em Ribeirão Preto, trilhou um caminho singular que a levou da advocacia corporativa ao coração do cinema europeu, passando a viver na ilha de Fårö, lar do lendário diretor sueco Ingmar Bergman.

Tudo começou aos 17 anos, quando assistiu ao filme Morangos Silvestres de Bergman – e ficou profundamente tocada. A experiência despertou nela um desejo que iria além da simples admiração, algo mudou dentro dela naquele momento, e alguns anos depois, decidiu escrever uma carta ao cineasta. Esse gesto simbólico se tornaria um divisor de águas em sua vida. Helen cruzaria o Atlântico para mergulhar de vez no universo do mestre sueco.

Helen estudou Administração na FGV e Direito na USP, chegando a atuar como advogada em grandes escritórios. Apesar do sucesso profissional, faltava algo: o lado criativo, presente desde a infância. A inquietação levou-a a buscar novos caminhos. A carta enviada a Bergman marcou o início de uma ligação duradoura com seu universo cinematográfico.

Mudou-se para a Suécia e acabou assumindo a direção da Bergman Center Foundation, organizando o prestigiado festival Bergman Week. Durante quatro anos, articulou projetos de impacto, como levar o ator Willem Dafoe para residir em uma das casas do cineasta.

Entre desafios e conquistas, Helen conciliou sua identidade brasileira — marcada pela flexibilidade e pelo improviso — com a tradição sueca, mais metódica. Esse intercâmbio cultural ampliou seu olhar artístico e sua percepção do papel da memória cinematográfica.

Agora, sua própria trajetória chega às telas no filme “Uma Carta para Bergman”, coprodução da MVM Movimentos Culturais (Ribeirão Preto) e da Cinemascópio (Recife), com participação de Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux. A obra mistura documentário e ficção, colocando Helen tanto como personagem quanto como diretora de si mesma.

Mais do que contar a história de uma jovem que escreve a Bergman e acaba morando em Fårö, o filme reflete sobre identidade, coragem e a busca por autenticidade. O filme é um convite para que cada pessoa encontre e honre sua versão mais fiel de si.

Helen mostra como escolhas aparentemente simples — como escrever uma carta — podem redefinir destinos. Sua trajetória inspiradora faz com que os sonhadores e determinados não se conformem com caminhos já traçados, mas busquem a interseção.

Sua história ressoa como exemplo de que a arte e a psicanálise compartilham um mesmo território: o da escuta do inconsciente, da coragem de olhar para dentro e da possibilidade de criar novos sentidos para a vida.

A PARTIDA

A PARTIDA

Acordou com as mãos cerradas, como sempre. Tentando prender o que escapa.

Na fresta da janela, luz crua de sete da manhã. Dentro dela, uma ausência estranha — não leveza, mas falta de luta.

O coração, acostumado ao murmúrio opaco da tristeza, trazia outro pulso. Não melodia: pergunta seca no peito.

Olhou para a cadeira vazia da cozinha, onde a melancolia costumava se sentar. — Hoje não — disse, com a voz áspera de quem dormiu mal. O som não trouxe alívio. Trouxe vertigem.

Sabia — não por revelação, mas pelo cansaço nas juntas — que era hora de partir. Não da casa. De si mesma.

Fez uma mala pequena. Colocou um caderno de capa gasta, metade em branco, uma pedra lisa achada na infância, um lenço manchado de tinta azul. Tentar levar o essencial era tolice, mas precisava dessa tolice para se mexer.

O chão frio da cozinha prendeu seus pés descalços por um instante. O vento entrou pela janela aberta, remexeu contas não pagas na mesa, espalhou rascunhos pelo linóleo. Parecia cúmplice de alguma coisa.

A vida sempre fora uma sala de espera de relógio quebrado. Agora o chamado vinha de dentro: um apito seco no ouvido, insistente como zumbido de mosquito. O ar cheirava a terra molhada do quintal e gasolina da rua. Respirou fundo. No peito, algo áspero e pontiagudo fincou raiz. Doía igual a fome.

Lá fora, nada extraordinário: um gato amarelo cruzou a rua. Um caminhão de gás buzinou três vezes. A luz era comum, sem promessas.

— Vamos — disse para o espelho embaçado do corredor. Sua voz voltou como um eco de alguém que já não morava ali.

Não voou. Escalou a própria resistência. No início, cada movimento era contra uma corrente invisível. Os músculos protestavam, a cabeça insistia em enumerar tudo que deixava para trás: a conta de luz, o gato que miava na madrugada, a rotina que a protegia do vazio. Quis parar três vezes. Parou duas.

Quando conseguiu se ver de longe — como quem sobe um morro e olha a cidade pequena lá embaixo —, a casa parecia frágil, de papelão molhado. A vida, um mapa gasto de rotas riscadas e atalhos que não levavam a lugar nenhum. As preocupações, encolhidas nos cantos escuros dos cômodos, prontas para saltar sobre ela quando voltasse.

Riu baixo, sem alegria. Não de desprezo, mas de estranheza: era possível sentir-se estrangeira na própria pele.

A estrela da manhã era só um ponto prateado no azul desbotado do céu. — Pensei que tivesse desistido — disse uma voz que podia ser sua própria, ecoando. — Quase — respondeu, com a garganta apertada.

Caminhou devagar por um território que não tinha geografia. Tentou cantar uma música da infância; saiu um sopro rouco, desafinado. O silêncio pesava nos ouvidos como água. A solidão não era companhia — era fome de conversa que ninguém podia matar.

Quando o sol baixou — não cansado, apenas indiferente —, soube que a partida real começava no retorno. Sempre fora assim: a viagem estava no caminho de volta.

Desceu devagar, as pernas bambas, as mãos vazias guardando ainda o gosto metálico do ar rarefeito lá em cima. Não havia cavalo místico, só a gravidade puxando o corpo para casa.

Chegou quando os postes de luz acendiam suas manchas amarelas no crepúsculo sujo da cidade. Sentou-se na mesma cadeira da cozinha. A pedra da infância pesava no bolso como um peso sem razão. A melancolia estava lá, esperando, mas havia agora um espaço novo ao lado — não vazio. Algo diferente.

A poesia não era um lugar para onde se vai. Era uma cicatriz no jeito de olhar as coisas comuns.

Texto de José Antônio Sanches de Castro- Membro filiado da SBPSP e do GEP de Marília e Região
O grande presente que é a vida

O grande presente que é a vida

 A IPA (Associação Psicanalítica Internacional), é uma organização que reúne profissionais da psicanálise de todo o mundo. Foi fundada por Sigmund Freud em 1910, junto com outros pioneiros da psicanálise, com o objetivo de promover e desenvolver a teoria e a prática psicanalítica. Viver é um presente. Estar presente no presente é vida. Pois bem, ela ofereceu “Um pequeno presente – Setembro de 2025”, para todos os associados nesse mês, conhecido como setembro amarelo.

 Ao contemplá-lo logo coloquei-me a sonhar sobre o seu conteúdo significativo. É uma linda imagem (IA) da obra de arte de Andrés Curruchich,1968 chamada “Os padrinhos”, associado a uma frase contida em O amor em tempos de Cólera, de Gabriel Garcia Márquez, e diz assim: “Ele se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem totalmente no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga muitas e muitas vezes a se parirem a si mesmos”.   Pensamentos sobre a vida e suas vicissitudes ocorreram, assim como a do percurso e trajetória. O que é a vida senão, movimentos constantes de um “parir” nosso de cada dia? Viver exige! O tempo urge! Freud em seu texto “Mal-estar na civilização” (1930) diz assim, “Não podemos pular para fora deste mundo, estamos nele de uma vez por todas”, e “há um vínculo indissolúvel, de ser uno com o mundo externo como um todo”. 

E, “o propósito da vida é simplesmente o programa do princípio de prazer, que domina o funcionamento do aparelho psíquico desde o início… E não há possibilidade nenhuma de ele ser executado, todas as normas do universo são contrárias”. Então, Freud diz que “a felicidade, contudo, é algo essencialmente subjetivo” e “A sociedade e os seus padrões influenciam nossa felicidade”, destacando então o conflito entre nossos desejos individuais e as expectativas da sociedade”.

 Martin Buber em seu livro, Eu e Tu, enfatiza que “o homem conheceu o universo no seio materno, mas que ao nascer tudo caiu no esquecimento. E este vínculo permanece nele como uma imagem secreta de seu desejo. Não como se sua nostalgia significasse um anseio de volta, como prescrevem aqueles que veem no espírito, por eles confundido com o intelecto, um simples parasita da natureza. Ao contrário, é a nostalgia da procura do vínculo cósmico do ser que se desabrocha ao espírito com seu Tu verdadeiro” … “Tudo o que será representado diante do homem adulto, como objetos habituais, deve ser conquistado, solicitado pelo homem em formação num inesgotável esforço, pois, coisa alguma é parte de uma experiencia, nada se revela senão pela força atuante na reciprocidade do face a face”.

 Realmente, desde nossa concepção há um turbilhão de emoções que giram em torno de perdas, separações, conquistas e ganhos. É um vai e vem entre dúvidas e incertezas no dia a dia do cotidiano. Narcisicamente, lutamos diante das cesuras, resistindo ao crescimento e desenvolvimento. Mudanças implicam visitar o novo e o desconhecido, muitas vezes, há escolha em direção da alienação e refúgios até para nossa própria sobrevivência. Utilizamos mecanismos de defesa como racionalização, negação e fuga e até mesmo, a retirada para um mundo delirante. Nós psicanalistas sabemos, que em determinados momentos, quando as defesas falham, frustrações de qualquer tipo podem ser sentidas como aniquiladoras.

 A contemporaneidade em meio a aceleração, cobrança desenfreada, perfeccionismo e prevalência do Ter leva o indivíduo em direção à frustração constante e ao esgotamento físico e mental onde a construção do Ser acaba sendo impossível. Um vazio invade e o tédio toma conta e a busca por soluções mágicas surgem subitamente. É preciso sustentar esse mal-estar que irrompem em nossa rotina, ressignificar as faltas. Saber esperar o tempo certo. Esperar é sanidade. Dar um tempo é saudável. Simbolizar é vida.

 Há pessoas que sofreram dificuldades na constituição do psiquismo onde as figuras protetoras iniciais foram internalizadas sem que estabelecesse um sentido de coesão, segurança e a construção de si próprio é vivenciado sempre como risco de dissolver-se, desagregar-se ou liquidificar-se. Essas pessoas têm maiores propensões ao suicídio. Todos os seres humanos necessitam do olhar do outro para se sentirem existentes, mas para algumas pessoas esse olhar é fundamental. Na ausência dele, elas não se sentem vivas, sentem-se perdidas ou à deriva. Os aspectos preventivos poderão levar à identificação de sofrimento mental de forma precoce, evitando assim, um possível suicídio ou um estado mental conhecido como colapso. Buscar ajuda especializada, poderá iluminar e organizar os pensamentos soltos e desagregadores. Sempre haverá alguém disposto ao amparo e acolhimento.

Maria Angelica Amoriello Bongiovani-Psicanalista membro efetivo na SBPSP e membro do GEP de Marilia e região .   
O Acordo

O Acordo

Acordou naquela manhã com uma estranha certeza: havia algo a ser negociado. Não sabia o quê, nem com quem, mas sentia nas vísceras – ah, as vísceras sempre sabem antes da cabeça – um acordo se fazia necessário. Os sonhos haviam mexido alguma coisa durante a noite, e agora essa sensação batia no peito, um sino teimoso.  

Levantou-se devagar, pés procurando as pantufas no escuro ainda morno do quarto. Quarenta e dois anos de vida e ainda se surpreendia com essas certezas que chegavam do nada, como passarinhada no céu de dezembro. 

A casa dormia ao seu redor – o marido roncando baixinho, o filho adolescente no quarto ao lado, imerso naquele sono profundo que só os jovens conhecem. 

Caminhou até a cozinha, onde a luz da aurora entrava oblíqua, procurando algo que havia perdido entre as sombras da noite. Preparou o café, estando em outro lugar — naquele espaço entre o sonho e a vigília, onde o impossível faz todo sentido. 

O café fumegava na xícara, mas ela via outras coisas. Via o rosto do filho refletido na superfície escura do líquido – aquele menino que um dia foi e que agora existia apenas na curvatura do sorriso do homem que ele se tornava. Via também a si mesma aos vinte, grávida e assustada, sem saber que tipo de mãe seria. E via, como sobreposição de retratos, a velha que um dia seria — cabelos brancos, mãos enrugadas — olhando para trás, para a própria travessia. 

Mas ali, ali mesmo havia uma presença. Invisível, palpável como o ar antes da chuva. Ela sempre soubera dessa presença, desde pequena, quando brincava de boneca no quintal da casa da avó e sentia que alguém a observava com ternura infinita. Não era Deus – pelo menos não o Deus das igrejas, com sua barba branca e seus mandamentos pesados como pedras. Era algo íntimo, rente à pele. Respirava com ela. Pulsava no compasso do seu coração. 

“Eu te conheço”, murmurou para o vazio que não era. Conhecia mesmo. Conhecia-o no coração que dispara, no crescimento imperceptível das unhas, no amadurecimento de sonhos que mudam com o tempo. Conhecia-o na maneira como as estações se sucediam, como os cabelos embranqueciam, como os amores chegavam e partiam deixando marcas invisíveis na alma. 

Ele quem decidiu que ela conheceria o marido justamente no dia em que havia jurado que nunca mais se apaixonaria. Ele quem fazia as crianças nascerem no momento delas, nem antes nem depois. Ele quem sussurrava aos velhos quando era hora de partir, com a delicadeza de quem embala uma criança para dormir. 

Sentou-se à mesa, onde tantas conversas haviam acontecido. Ali o filho disse que queria ser artista, e ela engoliu todos os conselhos práticos que subiram pela garganta. Ali o marido contou sobre a promoção no trabalho, e eles brindaram com vinho barato e risos caros. Ali sua mãe tinha chorado quando o pai morreu, e ela aprendera que a dor também pode ser bonita, quando é dividida. 

Fechou os olhos e o sentiu dançando ao seu redor. Inventivo menino. Era belo esse dançarino silencioso. Transformava segundos em séculos quando se está beijando alguém que se ama, e séculos em suspiros quando se espera notícias de um exame médico. Brincava com as proporções, fazia malabarismos com as durações. Brincava com o tempo como quem entende a delicadeza de viver. 

Lembrou-se de quando era menina e perguntava à avó por que os dias felizes passavam tão rápido e os tristes demoravam tanto. A avó respondera que era porque o coração tem um relógio diferente do da parede. Agora entendia. O coração marca o ritmo da intensidade, não da duração. Um beijo pode durar uma eternidade; uma espera pode ser um instante, se estivermos ocupados com o que importa. 

A negociação começou sem palavras. Assim que as coisas importantes aconteciam – sem protocolo, sem cerimônia. Se oferecia inteira: rugas no canto dos olhos, medos noturnos de não bastar, alegrias guardadas como potes esquecidos no alto do armário da memória. Oferecia suas lentas manhãs de domingo, a chuva vista da varanda, as noites em que a insônia trazia ideias. Essas visitas que não avisam. 

Em troca, pedia apenas o essencial: que cada gesto seu tivesse sentido, que cada palavra fosse verdadeira como o sal das lágrimas. Não queria grandeza – essa nunca fora sua ambição. Queria precisão. Queria que sua vida fosse uma música bem tocada, com cada nota no seu tempo, e as pausas tão importantes quanto os sons. 

Não buscava disfarces. Queria apenas irradiar o tipo de presença que faz os outros se sentirem vistos. Conhecia gente assim – a professora do primário que fazia todos se sentirem especiais, o padeiro da esquina que transformava a compra do pão em pequena festa, a vizinha que sabia escutar de verdade. Queria isso. Estar por perto quando importasse. Como quem entrega o necessário sem esperar nomeação.  

Pensou no marido, ainda dormindo lá em cima, e no filho que em poucos anos sairia de casa para construir a própria vida. Pensou em como queria ser lembrada — pelo marido, enquanto houvesse tempo; pelo filho, por toda a vida. Não como a mãe que cobrava demais ou reclamava das meias no chão, mas como aquela que sabia quando falar e quando calar, quando apertar e quando soltar. Queria ser a lembrança boa que pudessem carregar. 

O segredo do acordo ficaria entre eles. Como os bons segredos, seria simples demais para ser compreendido e profundo demais para ser explicado. Não contaria para ninguém essa conversa silenciosa na cozinha. Essa negociação com o invisível. Se contasse, diriam que estava ficando mística, que era menopausa chegando, ou qualquer uma dessas explicações que as pessoas dão quando não conseguem aceitar que a vida às vezes fala diretamente com a gente. 

Guardaria o segredo como um tesouro. Guardaria a sensação de ter sido acolhida por algo que não sabia nomear, mas reconhecia desde sempre. Tinha assinado um contrato escrito na língua que só o coração sabe ler, com cláusulas de amor e subcláusulas de compaixão.   

Sabia que um dia a dança terminaria. Que ele seguiria dançando com outros, e ela se tornaria apenas uma nota musical na partitura infinita que começou muito antes dela e continuaria muito depois dela partir. Havia a certeza sem nome de que algo permaneceria. 

Talvez na memória do filho quando ele fosse pai e precisasse de coragem para amar. Talvez no sorriso do marido quando ele estivesse velho e se lembrasse das manhãs em que ela acordava primeiro e preparava o café. Talvez na gentileza de algum estranho que um dia ela tivesse ajudado e passaria essa gentileza adiante. 

O café havia esfriado e o dia se oferecia quente e cheio de possibilidades. Ouviu os primeiros ruídos da casa despertando – o chuveiro ligado lá em cima, o despertador do filho tocando pela terceira vez. O cotidiano recomeçava, mas algo havia mudado. O acordo. Assumira um compromisso consigo e com esse dançarino invisível que a acompanhava. 

Beijou a palma da mão e a entregou ao ar. Sentiu que algo respondeu. Bastou. 

O marido desceu para tomar café e a encontrou cantarolando baixinho uma música que ele nunca tinha ouvido, mas pareceu estranhamente familiar, como se fosse uma canção que ele próprio havia sonhado uma vez e esquecido ao acordar.

 

José Antônio Sanches de Castro
Membro filiado da SBPSP e do GEP de Marília e Região
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