Acordou naquela manhã com uma estranha certeza: havia algo a ser negociado. Não sabia o quê, nem com quem, mas sentia nas vísceras – ah, as vísceras sempre sabem antes da cabeça – um acordo se fazia necessário. Os sonhos haviam mexido alguma coisa durante a noite, e agora essa sensação batia no peito, um sino teimoso.
Levantou-se devagar, pés procurando as pantufas no escuro ainda morno do quarto. Quarenta e dois anos de vida e ainda se surpreendia com essas certezas que chegavam do nada, como passarinhada no céu de dezembro.
A casa dormia ao seu redor – o marido roncando baixinho, o filho adolescente no quarto ao lado, imerso naquele sono profundo que só os jovens conhecem.
Caminhou até a cozinha, onde a luz da aurora entrava oblíqua, procurando algo que havia perdido entre as sombras da noite. Preparou o café, estando em outro lugar — naquele espaço entre o sonho e a vigília, onde o impossível faz todo sentido.
O café fumegava na xícara, mas ela via outras coisas. Via o rosto do filho refletido na superfície escura do líquido – aquele menino que um dia foi e que agora existia apenas na curvatura do sorriso do homem que ele se tornava. Via também a si mesma aos vinte, grávida e assustada, sem saber que tipo de mãe seria. E via, como sobreposição de retratos, a velha que um dia seria — cabelos brancos, mãos enrugadas — olhando para trás, para a própria travessia.
Mas ali, ali mesmo havia uma presença. Invisível, palpável como o ar antes da chuva. Ela sempre soubera dessa presença, desde pequena, quando brincava de boneca no quintal da casa da avó e sentia que alguém a observava com ternura infinita. Não era Deus – pelo menos não o Deus das igrejas, com sua barba branca e seus mandamentos pesados como pedras. Era algo íntimo, rente à pele. Respirava com ela. Pulsava no compasso do seu coração.
“Eu te conheço”, murmurou para o vazio que não era. Conhecia mesmo. Conhecia-o no coração que dispara, no crescimento imperceptível das unhas, no amadurecimento de sonhos que mudam com o tempo. Conhecia-o na maneira como as estações se sucediam, como os cabelos embranqueciam, como os amores chegavam e partiam deixando marcas invisíveis na alma.
Ele quem decidiu que ela conheceria o marido justamente no dia em que havia jurado que nunca mais se apaixonaria. Ele quem fazia as crianças nascerem no momento delas, nem antes nem depois. Ele quem sussurrava aos velhos quando era hora de partir, com a delicadeza de quem embala uma criança para dormir.
Sentou-se à mesa, onde tantas conversas haviam acontecido. Ali o filho disse que queria ser artista, e ela engoliu todos os conselhos práticos que subiram pela garganta. Ali o marido contou sobre a promoção no trabalho, e eles brindaram com vinho barato e risos caros. Ali sua mãe tinha chorado quando o pai morreu, e ela aprendera que a dor também pode ser bonita, quando é dividida.
Fechou os olhos e o sentiu dançando ao seu redor. Inventivo menino. Era belo esse dançarino silencioso. Transformava segundos em séculos quando se está beijando alguém que se ama, e séculos em suspiros quando se espera notícias de um exame médico. Brincava com as proporções, fazia malabarismos com as durações. Brincava com o tempo como quem entende a delicadeza de viver.
Lembrou-se de quando era menina e perguntava à avó por que os dias felizes passavam tão rápido e os tristes demoravam tanto. A avó respondera que era porque o coração tem um relógio diferente do da parede. Agora entendia. O coração marca o ritmo da intensidade, não da duração. Um beijo pode durar uma eternidade; uma espera pode ser um instante, se estivermos ocupados com o que importa.
A negociação começou sem palavras. Assim que as coisas importantes aconteciam – sem protocolo, sem cerimônia. Se oferecia inteira: rugas no canto dos olhos, medos noturnos de não bastar, alegrias guardadas como potes esquecidos no alto do armário da memória. Oferecia suas lentas manhãs de domingo, a chuva vista da varanda, as noites em que a insônia trazia ideias. Essas visitas que não avisam.
Em troca, pedia apenas o essencial: que cada gesto seu tivesse sentido, que cada palavra fosse verdadeira como o sal das lágrimas. Não queria grandeza – essa nunca fora sua ambição. Queria precisão. Queria que sua vida fosse uma música bem tocada, com cada nota no seu tempo, e as pausas tão importantes quanto os sons.
Não buscava disfarces. Queria apenas irradiar o tipo de presença que faz os outros se sentirem vistos. Conhecia gente assim – a professora do primário que fazia todos se sentirem especiais, o padeiro da esquina que transformava a compra do pão em pequena festa, a vizinha que sabia escutar de verdade. Queria isso. Estar por perto quando importasse. Como quem entrega o necessário sem esperar nomeação.
Pensou no marido, ainda dormindo lá em cima, e no filho que em poucos anos sairia de casa para construir a própria vida. Pensou em como queria ser lembrada — pelo marido, enquanto houvesse tempo; pelo filho, por toda a vida. Não como a mãe que cobrava demais ou reclamava das meias no chão, mas como aquela que sabia quando falar e quando calar, quando apertar e quando soltar. Queria ser a lembrança boa que pudessem carregar.
O segredo do acordo ficaria entre eles. Como os bons segredos, seria simples demais para ser compreendido e profundo demais para ser explicado. Não contaria para ninguém essa conversa silenciosa na cozinha. Essa negociação com o invisível. Se contasse, diriam que estava ficando mística, que era menopausa chegando, ou qualquer uma dessas explicações que as pessoas dão quando não conseguem aceitar que a vida às vezes fala diretamente com a gente.
Guardaria o segredo como um tesouro. Guardaria a sensação de ter sido acolhida por algo que não sabia nomear, mas reconhecia desde sempre. Tinha assinado um contrato escrito na língua que só o coração sabe ler, com cláusulas de amor e subcláusulas de compaixão.
Sabia que um dia a dança terminaria. Que ele seguiria dançando com outros, e ela se tornaria apenas uma nota musical na partitura infinita que começou muito antes dela e continuaria muito depois dela partir. Havia a certeza sem nome de que algo permaneceria.
Talvez na memória do filho quando ele fosse pai e precisasse de coragem para amar. Talvez no sorriso do marido quando ele estivesse velho e se lembrasse das manhãs em que ela acordava primeiro e preparava o café. Talvez na gentileza de algum estranho que um dia ela tivesse ajudado e passaria essa gentileza adiante.
O café havia esfriado e o dia se oferecia quente e cheio de possibilidades. Ouviu os primeiros ruídos da casa despertando – o chuveiro ligado lá em cima, o despertador do filho tocando pela terceira vez. O cotidiano recomeçava, mas algo havia mudado. O acordo.Assumira um compromisso consigo e com esse dançarino invisível que a acompanhava.
Beijou a palma da mão e a entregou ao ar. Sentiu que algo respondeu. Bastou.
O marido desceu para tomar café e a encontrou cantarolando baixinho uma música que ele nunca tinha ouvido, mas pareceu estranhamente familiar, como se fosse uma canção que ele próprio havia sonhado uma vez e esquecido ao acordar.
José Antônio Sanches de Castro Membro filiado da SBPSP e do GEP de Marília e Região
No mês de agosto, é celebrado o aniversário de nascimento e morte do psicanalista kleiniano Donald Meltzer. Seu legado é amplamente reconhecido por seu profícuo trabalho na disseminação da Psicanálise. Clinicou com adultos e crianças em Londres e Oxford, sendo nome renomado da Clínica Tavistock. Proferiu conferências pela Europa e América do Sul e ofertou cursos regulares em países como Itália, França e Argentina.
Formado em Medicina em Yale, Meltzer se especializou em Psiquiatria, mais especificamente em Psiquiatria Infantil, o que impactou diretamente em sua vida pessoal e profissional. Ao entrar em contato com as obras de Melanie Klein, amplamente difundida nos EUA na clínica com crianças, Meltzer decidiu por se mudar para a Inglaterra em 1954 e assim, iniciar seu processo de análise com a psicanalista austríaca. Neste momento, filia-se à Sociedade Britânica de Psicanálise.
É interessante observar que sua análise com Klein só foi interrompida em 1960, ano em que a psicanalista faleceu. Meltzer passou então a se analisar com Wilfred Bion, seu contemporâneo, com quem nutriu não somente a relação analista-paciente, mas também uma nova visão para a área da Psicanálise.
Seu legado é composto por livros, artigos, cursos e supervisões que ampliam distintos assuntos e conceitos no âmbito da Psicanálise, mas pode-se destacar principalmente seu trabalho em relação ao método psicanalítico no contexto da clínica. Melanie Klein, Esther Bick, Martha Harris e Wilfred Bion foram os principais nomes a influenciar o seu trabalho.
Pandolfo (2024, p. 285) destaca que Meltzer impactou e influenciou de forma inquestionável a Psicanálise contemporânea, pois o psicanalista.
[…] evidencia a importância e a capacidade de contato com o mundo interno, com o inconsciente, salientando tanto a beleza do interior do objeto como seu horror. Seu legado amplia e enriquece a psicanálise, revelando-nos como o olhar para contextos primitivos permite que consideremos as dimensões mais profundas da mente.
Em 1971, apresentou o artigo Towards an atelier system, (“Rumo à um sistema de ateliê”, em tradução livre) à Sociedade Britânica. Considerado subversivo por tecer críticas as instituições psicanalíticas, modelo principal de difusão da Psicanálise na época, Meltzer defende neste trabalho que a verdadeira formação ocorreria entre os indivíduos por meios dos grupos de trabalho, prática esta que desempenhou frequentemente em suas viagens pela Europa e América Latina.
Meltzer nasceu em 14 de agosto de 1922, nos Estados Unidos, e faleceu aos 89 anos em 13 de agosto de 2004, no Reino Unido. Era o terceiro filho de uma família de judeus. Casou-se três vezes, teve três filhos e três enteados. Atuou principalmente na Europa e América do Sul, ao lado de sua terceira esposa e também psicanalista, Martha Harris (1919-1986).
A Biblioteca “Alfredo Menotti Colucci”, do GEP Marília e Região traz uma seleção de obras relacionadas à Donald Meltzer disponíveis em seu acervo para consulta e empréstimo:
Em “Estados sexuais da mente”, Donald Meltzer defende que “[…] a fantasia-chave de qualquer estado da mente é a cena primária. A natureza da fantasia da cena primária é a que governa a fantasia toda. Então, o objeto combinado é o cerne do significado da experiência” (Mélega, 2024, p. 152).
Já em “Meltzer em São Paulo: seminários clínicos”, organizado por Maria Olympia de A. F. França e Evelise de Souza Marra, temos os seminários clínicos da última vez que o psicanalista esteve em São Paulo.
Por fim, “O desenvolvimento estético: o espírito poético da psicanálise: ensaios sobre Bion, Meltzer e Keats”, de Meg Harris Williams, obra da filha de Martha Harris e enteada de Meltzer.
REFERÊNCIAS
JABUR, Pedro de Andrade Calil. Donald Meltzer: (1922-2004). Disponível em: https://febrapsi.org/publicacoes/biografias/donald-meltzer/. Acesso em: 31 jul. 2025.
MELEGA, Marisa Pelella. Meltzer e a mente inicial. Ide, São Paulo, v. 46, n. 78, p. 149-154, 2024. Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-31062024000200149&lng=pt&nrm=iso Acesso em 31 jul. 2025
O sofrimento emocional não é exclusividade dos adultos. Crianças – e até mesmo bebês – podem vivenciar angústias e dificuldades emocionais. Desde a gestação, o bebê já é impactado por experiências que podem influenciar sua saúde mental: complicações na gravidez, emoções vividas pela mãe, conflitos familiares ou até adversidades no ambiente onde a família vive, como catástrofes, violências ou instabilidades.
Reconhecer sinais de sofrimento emocional na infância é essencial. O desenvolvimento infantil segue marcos esperados, como aprender a andar por volta de 12 a 14 meses, formar frases simples em torno dos 2 anos e meio, ter um padrão de sono regular, adaptar-se à introdução alimentar e realizar o desfralde na fase adequada. Quando esses processos apresentam dificuldades, pode ser um alerta.
Outros comportamentos que chamam atenção incluem:
Crianças que não demonstram interesse por brincadeiras ou cujas brincadeiras não fazem sentido;
Crianças que preferem ficar isoladas e têm dificuldade para socializar ou brincar com outras crianças;
Crianças que passam muitas horas em telas, como celular, vídeo-game ou tablet;
Excesso de agressividade ou, ao contrário, crianças extremamente quietas e maduras para a idade – que “não dão trabalho” e se comportam como pequenos adultos;
Alterações de humor diante de situações como separação dos pais, nascimento de um irmão, perda de um ente querido ou dificuldades financeiras na família.
Essas manifestações podem ser sinais de que algo não está bem. Identificá-las e buscar ajuda é um passo fundamental para cuidar da saúde mental da criança.
A psicanálise é uma ferramenta poderosa nesse processo. Como terapia focada na compreensão do sofrimento humano, ela ajuda a criança a lidar com suas emoções, aliviando ou eliminando o sofrimento. Além disso, o psicanalista infantil trabalha lado a lado com os pais/responsáveis, orientando-os em práticas que favoreçam o desenvolvimento saudável dos filhos.
Mesmo que não haja sinais claros de sofrimento emocional, os pais e familiares podem tomar atitudes que ajudam a prevenir problemas futuros. É possível fortalecer a saúde emocional da criança separando um tempo diário para estar presente de forma plena: brincando, jogando jogos de tabuleiro, lendo histórias ou desenhando. Também é importante limitar o tempo de tela, incentivando o acesso aos brinquedos e atividades que estimulem a imaginação e interação.
Outro ponto fundamental é o bem-estar dos pais e o relacionamento entre o casal, pois isso impacta diretamente a criança. Cuidar de si mesmo é, também, cuidar dos filhos.
E se você perceber que sua criança não está bem, não se culpe. Pais são seres humanos, imperfeitos e falíveis. O mais importante é buscar ajuda e trabalhar em prol de mudanças que beneficiem toda a família.
Busque um psicanalista ou psicoterapeuta de sua confiança. Esses profissionais podem ser aliados fundamentais na jornada de cuidar da saúde emocional da criança.
Cuidar da saúde mental infantil é cuidar do futuro. Estejamos atentos aos sinais e dispostos a buscar apoio sempre que necessário.
Márcio Oldack Silva
Psicanalista, em formação, de criança, adolescente adulto. Membro Filiado do Instituto Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e do GEP – Grupo de Estudos Psicanalíticos de Marília e Região; especialista em Psicoterapias de Orientação Psicanalítica pela Famema; psicólogo pela Unimar.
Há uma canção de Nando Reis, chamada “Muito Estranho (Cuida bem de mim)”, onde ele diz que, “Porque ninguém vai dormir nossos sonhos” (2009). É uma canção muito instigante e intrigante. Podemos pensá-la sobre vários vértices. Gostaria de seguir pelo percurso dos sonhos, somente. Se você se julga, um sujeito que nada tem ou nada possui, ledo engano. Você possui os sonhos. Quando você dorme, sonha e esse sonho é de sua propriedade(autoria). Jamais alguém sonhará seus sonhos. Eles são estritamente genuínos e somente seus. Em 1901, Freud escreveu “Sobre os sonhos”, dizendo “o sonho é guardião do sono” e o “sonho é do sonhador”.
É preciso dormir profundamente para sonhar (Sono R.E.M). Hoje sofremos com a incomoda insônia. As pessoas estão mais operativas, automáticas, reativas e racionais; uma geração da busca pelo prazer momentâneo e de forma frenética. Não há tolerância para as experiencias desconfortáveis. Temos que realizar o prazer rápido, recusamos qualquer evidência de tédio. A preocupação pelo TER ao invés de SER tira o nosso sono, assim sendo, não estamos mais sonhando. Não dormir é não sonhar. Não sonhando, o descanso torna-se impossível. A consequência é: não podemos “sonhar” acordados, em vigília. Que vida pobre! O sonho desempenha muitas funções. Ele é a via régia do inconsciente. Ele propicia, segundo Hanna Segal, a expressão em fantasia, de um conflito inconsciente e busca uma solução em fantasia -uma satisfação do desejo. Quando nos lembramos de um sonho, mantemos comunicação com expressões simbólicas do inconsciente. O mais importante é que, no processo analítico essa comunicação interna torna-se também um meio de comunicação com o analista.
O trabalho onírico é parte da elaboração do conflito inconsciente. Ele também propicia uma comunicação intrapsíquica entre o inconsciente e o consciente. Quão grande é a tarefa do ego na realização do trabalho psíquico-trabalho onírico-envolvido no sonho! Preconizando Freud (1901), desde que tomamos conhecimento da sexualidade infantil, que muitas vezes é discreta em suas manifestações e geralmente ignorada e mal compreendida, podemos dizer que quase todo individuo civilizado mantem configuração infantil da vida sexual em algum ponto, e compreendemos, assim, que os desejos sexuais infantis reprimidos forneçam as mais robustas e frequentes forças motrizes para a formação dos sonhos. Em nosso ofício de psicanalistas, os sonhos sempre serão muito bem-vindos, não dispensamos indagar ao sonhador sobre as associações relativas ao seu sonho. Podemos auxiliá-los com a técnica de interpretação. O conteúdo onírico latente sofre o trabalho do sonho e o sonhador lembra-se do conteúdo onírico manifesto. O sonho passa por um complexo trabalho e não nos oferece o significado com simplicidade. Há condensações e deslocamento, ou seja, todo um trabalho de disfarce a ser desvendado. Afinal, tornar o inconsciente, consciente, é maravilhoso, mas é preciso uma longa formação para um vir a tornar-se psicanalista.
Maria Angélica Amoriello Bongiovani- Escritora, Psicóloga e Psicanalista Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo – SBPSP. Membro e docente do GEP de Marília e região.
Os Bebês Reborn são bonecas que imitam recém-nascidos, produzidas artesanalmente com características e materiais que fazem parecem com crianças de verdade, e que tem ganho popularidade entre os adultos nesses últimos meses. Esse tipo de boneca existe desde o começo dos anos dois mil, mas vem sendo aprimoradas com novos materiais há cerca de 3 anos e com isso ganham cada vez mais aparência de bebês reais. Essas bonecas andam sendo tratadas como se fossem crianças de verdade com direito a consulta médica e até simulação de parto. Algumas vem com cordão umbilical, recebem certidão de nascimento e carteira de vacinação.
As vendas aumentaram nos últimos meses graças a viralização das bonecas nas redes sociais, no entanto a maioria das compras sempre foi voltada para crianças e colecionadores que são o público-alvo dos fabricantes. Assim como para atividades de simulação em hospitais, faculdades, profissionais e doulas que utilizam as bonecas para simularem partos e cuidados recém-nascidos.
O uso de Bebês Reborn por adultos tem esquentados discussões sobre o assunto. De um lado há quem critique e até questione a sanidade mental de mulheres e homens adultos “brincando de boneca”. Em uma matéria publicada no Jornal ‘O Estado de São Paulo’ (17/05/2025) sobre o assunto o psicólogo Marcelo Santos, professor da Universidade Mackenzie, diz que a popularização do brinquedo por adulto pode ter benefícios à saúde mental. Isso porque permite criar comunidades, favorece o senso de pertencimento e a interação social, além de estímulo criativo e relaxamento. É importante analisar quais os contextos e as motivações por trás desses comportamentos.
O limite entre hobby e problema de saúde mental está na frequência, intensidade, distorção da realidade e impacto na vida e rotina do indivíduo, diz a psicóloga Rita Calegari da Hospital Nove de Julho. Torna-se problema quando usar o brincar para evitar lidar com problemas emocionais, traumas, situações difíceis ou a realidade da vida. Preocupa quando usa a brincadeira para fugir de sentimentos de solidão, ansiedade e tristeza. E é um problema também quando a pessoa prefere a companhia do brinquedo ao de pessoas e vínculos significativos e sociais.
Um hobby é saudável quando enriquece a vida proporcionando alegria e aprendizado sem gerar consequências negativas em outras áreas diz o psiquiatra Alaor Carlos de Oliveira Neto. Cruza-se a fronteira entre o hobby e um possível desequilíbrio emocional quando não se distingue o cuidado fantasioso da realidade ou quando a interação com a boneca afeta a responsabilidades diárias.
Embora não haja um corpo teórico específico sobre o fenômeno dos Bebês Reborn a psicanálise pode ter algo a falar a partir de conceitos fundamentais como fantasia, o narcisismo, o luto e a sublimação. Algumas possibilidades de leitura seria função simbólica e reparadora – para algumas pessoas, especialmente mulheres que sofreram perdas. O Bebê Reborn pode funcionar como um objeto transicional ou substitutivo, permitindo simbolizar a perda, e pode oferecer forma de representação do desejo inconsciente de reparar, cuidar ou reviver um vínculo afetivo interrompido.
O Bebê Reborn é um bebê eternamente pequeno, passivo e silencioso, evita as angústias da alteridade. Uma criança real cresce, deseja, demanda já os bonecos não trazem mudanças, nem finitude. O Bebê Reborn pode representar um bebê perfeitamente controlável e que nunca frustra – uma forma de retorno imaginário a um estado de completude narcísica. Ele pode representar o desejo inconsciente de reparar, cuidar ou reviver um vínculo afetivo e interrompido.
Porém é preciso observar caso a caso, entendendo a linha tênue entre a realidade e a distorção que afeta a saúde mental.
Cibele di Battista Brandão Presidente do GEP de Marília e Região
13 de Maio. Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpático para mim. É o dia da Abolição. Dia que comemoramos a libertação dos escravos.
…Nas prisões os negros eram os bodes expiatorios. Mas os brancos agora são mais cultos. E não nos trata com desprezo. Que Deus ilumine os brancos para que os pretos sejam feliz.
Continua chovendo. E eu tenho só feijão e sal. A chuva está forte. Mesmo assim, mandei os meninos para a escola. Estou escrevendo até passar a chuva, para eu ir lá no senhor Manuel vender os ferros. Com o dinheiro dos ferros vou comprar arroz e linguiça. A chuva passou um pouco. Vou sair. …Eu tenho tanto dó dos meus filhos. Quando eles vê as coisas de comer eles brada:
– Viva a mamãe!
A manifestação agrada-me. Mas eu já perdi o hábito de sorrir. Dez minutos depois eles querem mais comida. Eu mandei o João pedir um pouquinho de gordura a Dona Ida. Ela não tinha. Mandei-lhe um bilhete assim:
– “Dona Ida peço-te se pode me arranjar um pouco de gordura, para eu fazer uma sopa para os meninos. Hoje choveu e eu não pude catar papel. Agradeço, Carolina”.
…Choveu, esfriou. É o inverno que chega. E no inverno a gente come mais. A Vera começou pedir comida. E eu não tinha. Era a reprise do espetaculo. Eu estava com dois cruzeiros. Pretendia comprar um pouco de farinha para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha a Dona Alice. Ela deu-me a banha e arroz. Era 9 horas da noite quando comemos.
E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual – a fome!
Trecho do livro ”Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada” Carolina Maria de Jesus.