Nós da Comissão de Informática do Núcleo de Psicanálise de Marília e Região, gostaríamos de convidar a todos vocês Membros Agregados e Filiados ao NPMR a comporem nosso blog cultural nos enviando através do email blog@psicanalisemarilia.com.br. 
Serão permitidos textos espontâneos, literatura, poesias, crônicas, etc, apartidários e não religiosos para termos mais uma página da nossa história dentro da Psicanálise. 
Contamos com vocês!

Dia do Psicanalista

Julia G. B. V. Boselli

Sigmund Freud, 190x210 cm, Acrylic On Canvas, 2015-01, Voka

Sigmund Freud, 190×210 cm, Acrylic On Canvas, 2015-01, Voka

Esse mês comemoramos o Dia do Psicanalista. Profissão que escolhi e escolho todos os dias.

Freud tinha como habito escrever após seus atendimentos clínicos, o que, por consequência gerou uma grande obra epistemológica.

 Hoje, inspirada por ele, vou escrever após um dia de atendimentos também. Deixo aqui uma pequena contribuição para não passar em branco essa data. Afinal, de branco e pálido não tem nada essa tal de psicanálise.

Como terapeutas sabemos o nome de quem iremos atender e até mesmo o horário do paciente. Mas, a realidade é que nunca sabemos quem entrará por aquela porta. O inconsciente não segue uma lógica cronológica e organizada.

Abrimos a porta e com nossa atenção flutuante encontramos angustias primitivas. Nos deparamos com aquela criança que o paciente utiliza de várias defesas para esconder. Esconde o desamparo vivenciado concretamente ou simbolicamente no passado e que até hoje ressoa. 

Os sintomas dessas angústias estão aqui, no presente. O desamparo é vivido e atuado pelo próprio paciente, que repete na tentativa de elaborar o conflito. O paciente então trava uma luta (processo de análise) no lugar e horário apropriado para isso, a clínica.

O termo luta não me refiro no sentido de competição ou guerra, e sim, algo trabalhoso que envolve uma relação de intimidade em que o paciente pode recorrer à mente do analista.

Sem as lentes do psicanalista veríamos um adulto deitado no divã relatando seu dia; atrás dele, outro alguém ouvindo e apenas ouvindo. A verdade é que nós terapeutas estamos ali, fazemos parte ativamente da narrativa. Vivenciamos transferência e contratransferência durante toda sessão e usamos de diversas técnicas para maneja-las aproximando cada vez mais o paciente de seu desconhecido (inconsciente). 

O terceiro analítico (termo de Thomas Ogden) que nasce dessa dupla paciente-terapeuta é intenso, colorido, dolorido e até mesmo estético. As cores são tão vivas que frequentemente o psicanalista vive as identificações projetivas do paciente.

 O paciente, mesmo racionalmente entregue ao processo analítico, em sua ambivalência, luta para não ser amparado, pois é o modo que conhece até então. Como bem nos ensina Klein não podemos pensar em nada mais humano do que nossa dificuldade em amparar nossos desejos mais hostis.

Mas afinal porque no dia 6 de maio é comemorado o Dia do Psicanalista?  

Em 6 de maio de 1856 nasce em Freiberg (atual República Tcheca) Sigmund Freud neurologista criador da psicanálise. Peter Gay, seu biógrafo, o descreve como um arqueólogo da mente.

Freud cria o método psicanalítico que consiste em evidenciar significado inconsciente das palavras, ações e produções imaginarias (sonhos, fantasias e delírios) de um sujeito. (Definição de Laplanche e Pontalis)

Então não bastaria estudarmos sobre a psicanálise? Por que precisamos do psicanalista? Em uma das cartas que trocadas com Fliess (colega médico e confidente) Freud afirma: “A verdadeira autoanalise é impossível, do contrário não haveria doença.”

Seria impossível travar uma luta com nós mesmos para quebramos nossas próprias repressões. Quanta vezes nos faltariam coragem de olhar ou confrontar? Tenderíamos ao princípio de nirvana sempre que possível.

E sim, é mais fácil ter coragem se temos o psicanalista preparado para estar nesse caminho tortuoso do desenvolvimento emocional. O terapeuta faz muitos esforços como estudo, supervisão e analise pessoal de alta frequência, para que esse caminho, ainda que em companhia, seja individual e próprio do sujeito. Sem gerar dependência ou estar munido de julgamentos morais.

“Um dia, quando olhares para trásverás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste.” Freud

Feliz dia do Psicanalista aos terapeutas, mestres, supervisores e colegas.

Julia G. B. V. Boselli CRP:06/136769

Psicóloga clínica; Membro filiado Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo -SBPSP; Membro filiado ao NPMR – Núcleo de Psicanálise de Marília e Região; Graduada em Psicologia pela Universidade de Marília (SP) – UNIMAR;  Especialista em Psicoterapia de Orientação Psicanalítica pela Faculdade de Medicina de Marília – FAMEMA.
Realizou Curso de Aprimoramento em Psicoterapia Psicanalítica pelo Núcleo de Psicanálise de Marília e Região.
Auxiliar Comissão de Cultura do NPMR;
Auxiliar Comissão de Avaliação de novos agregados NPMR;
Auxiliar Comissão do Serviço de Orientação e Encaminhamento (SOE) NPMR.

Passado, presente e futuro

Alfredo Menotti Colucci*

A Psicanálise implantou-se formalmente em Marília e região no final da década de 1960, com atividades que se desenvolviam pelo Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Marília – FAMEMA, sob minha coordenação, com uma forte influência psicanalítica trazida da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP, propiciando o desenvolvimento de trabalhos, pesquisa e estudo da Psicanálise. Naquela época, Marília era um centro universitário com a presença de professores de reconhecimento internacional ligados à FAMEMA como a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília – USP.

O currículo da FAMEMA foi divulgado em Congressos encontrando ressonância nos órgãos governamentais. Foi quando, no início de 1973, foi firmado o Convênio com o Ministério da Saúde com respaldo da Organização Mundial da Saúde, criando-se o Centro Integrado de Saúde Mental de Marília. que integrou a FAMEMA a todos os serviços de saúde mental, tanto municipais e estaduais, como federais.

Esse foi um programa que repercutiu de forma positiva na academia brasileira e a FAMEMA foi construída sobre esse alicerce. Penso que essas origens a fazem ser, se não a única, uma das principais no cenário nacional pela dimensão da saúde integral do HOMEM.

Alguns anos antes, em 1968, iniciei minha formação psicanalítica e encontrei na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo uma entidade comprometida com a difusão da Psicanálise, herança de Durval Marcondes e Virgínia Bicudo. Incorpora-se nela o espírito expansionista dos bandeirantes, e o pioneirismo em aderir ao criativo, o que resulta na pujança de seu crescimento. A inclusão da análise concentrada foi decisiva para que a Psicanálise se ampliasse para o interior. Entretanto, em 1982, a IPA recomenda o impedimento de se iniciar análises concentradas, o que exigiu uma mobilização tanto da ABP (atual FEBRAPSI) como da SBPSP, e iniciaram-se jornadas científicas para permitir que argumentos consistentes pudessem ir contrapondo-se aos da IPA. Cito alguns dos autores desses trabalhos: Alfredo Menotti Colucci, Deodato Curvo de Azambuja, João Carlos Braga, Luiz Carlos Menezes, Marcio Giovanetti, Roosevelt Cassorla e outros, que foram decisivos nesse processo. Além da participação de Plinio Montagna junto à IPA para a aceitação da análise concentrada, considerando que, sem esse modelo, seria impossível o desenvolvimento da Psicanálise no Brasil.

    

Em 1992, é criada na SBPSP a Comissão do Interior sob a coordenação de Odilon Franco Filho. Durante oito anos, até 2000, quando pode ser instalada a Secretaria do Interior, um trabalho de base foi realizado por mim, José Pavan, Regina Colucci, Maria Auxiliadora Ribeiro, Cibele Brandão, Miguel Marques, Tais Marques e Celina de Melo e, reunindo-nos na Clínica Guanas, demos prosseguimento à nossa formação psicanalítica na SBPSP e trabalhamos na difusão da Psicanálise. Tal era a repercussão, que a clínica era chamada de “Sergipinha”, por propiciar cursos e seminários clínicos para muitas cidades da região, uma alusão à Rua Sergipe, então sede da SBPSP.

A produção de trabalhos psicanalíticos também foi marcante, o que estimulou o lançamento de uma revista que, por seu conteúdo psicanalítico, recebeu o nome de Revista do Interior com duplo significado: os analistas residentes no interior e o tema do interior do Homem. A revista foi, na realidade, uma nova edição de uma revista produzida na década de 1970.

A Clínica Guanas foi insuficiente para suportar o crescimento do grupo, mas como existia nela um Centro de Estudos Psicanalíticos, foi possível reproduzi-lo na instalação do Núcleo de Psicanálise de Marília e Região (NPMR). Na época, esse núcleo e o de Curitiba foram oficializados pela FEBRAPSI, estimulando a instalação dos Núcleos pela Secretaria do Interior na gestão de Márcio Giovanetti (2000), sob minha coordenação. Logo, 16 Núcleos da Secretaria do Interior estavam ativos. Nessa época, tal qual um caixeiro-viajante, foi possível levar a Psicanálise para cidades do estado de São Paulo, bem como outros estados do Brasil. Minha participação em duas gestões das diretorias da SBPSP e da FEBRAPSI foram importantes para trazer subsídios para Marília e sempre estimulei a SBPSP a continuar sua vocação bandeirante. 

  

Em final de 1994 instala-se oficialmente o NPMR, o que marca o início das atividades institucionalizadas em Marília e Região. Destaco dois eventos: I Encontro do NPMR, em 1995, e o II Encontro do NPMR, em 1997 – Entrelinhas. Dessa forma, construiu-se o berço para a Diretoria Regional na SBPSP, que continuou estimulando novos Núcleos. Essa história pode ser acompanhada no livro “Caminhos cruzados, sonhos compartilhados: Inserção da Psicanálise em Marília e Região” que se encontra no acervo da SBPSP, propiciando investigar os fatores que são necessários, mas não suficientes, para a inserção da Psicanálise em uma região ou mesmo sua difusão e/ou sua divulgação.

Hoje o NPMR, pelo seu crescimento, número de membros e atividades, busca a passagem para Grupo de Estudo ligado à IPA.

Pesquisa em Psicanálise

Com a vinda de Bion na década de 1970, e estimulado por Judith Andreucci, Lygia do Amaral e Frank Phillips, desenvolvi investigações no início das relações mãe-bebê-pai, tendo produzido vários trabalhos, sendo o de maior investimento, o realizado por uma equipe multiprofissional composta por psicanalistas, pediatras, ginecologistas, estatísticos e filósofos, que durou 5 anos na observação de gestações, período perinatal, parto e puerpério de 33 casais grávidos.  Pesquisa subvencionada pela RAB – IPA, aprovada em 23 de junho de 2000.

Uma proposta para o futuro

A pesquisa sobre análise concentrada permitiu que a SBPSP ampliasse sua expansão. Hoje, com a introdução do sistema de cursos, seminários, supervisões e análises on-line, novos estudos precisam ser realizados, pois esta forma de trabalho, embora importante, ainda não apresenta experiências suficientes a respeito de sua repercussão na formação psicanalítica. Uma vez alicerçada, e aperfeiçoando-se esta aquisição, somada à atualização da SBPSP pelo sistema Virgínia, poderia alcançar áreas e ampliar a expansão da Psicanálise na Grande São Paulo e no Estado, continuando a ser norteada pelo espírito bandeirante.

Deixo meu agradecimento a todos que trabalharam nessa empreitada, com destaque aos funcionários da SBPSP.

Crédito: Aleksey Odintsov, Abstract Twisted Waves. 

Alfredo Menotti Colucci

É psicanalista, membro efetivo, docente e ditada da SBPSP e Fundador do Núcleo de Psicanálise de Marilia e Região. 

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